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Sísifo – Miguel Torga

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Sísifo

Recomeça…

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro,

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar

E vendo

Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças.


Contrariedades – Cesário Verde

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Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:

Tanta depravação nos usos, nos costumes!

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes

E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora

Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;

Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes

E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!

Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.

Lidando sempre! E deve conta à botica!

Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;

Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,

Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,

Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta

No fundo da gaveta. O que produz o estudo?

Mais uma redacção, das que elogiam tudo,

Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine

Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa

Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa

Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.

Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,

Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho

Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,

Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.

Independente! Só por isso os jornalistas

Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,

Se forem publicar tais coisas, tais autores.

Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores

Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,

Obtém dinheiro, arranja a sua “coterie”;

Ea mim, não há questão que mais me contrarie

Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;

Eu raramente falo aos nossos literatos,

E apuro-me em lançar originais e exactos,

Os meus alexandrinos…

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!

Ignora que a asfixia a combustão das brasas,

Não foge do estendal que lhe humedece as casas,

E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.

Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,

Oiço-a cantarolar uma canção plangente

Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.

Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,

Conseguirei reler essas antigas rimas,

Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;

Emprega-se a “réclame”, a intriga, o anúncio, a “blague”,

E esta poesia pede um editor que pague

Todas as minhas obras…

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?

Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia…

Que mundo! Coitadinha!

 


Quantas vezes, Amor, me tens ferido? – Bocage

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Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Razão, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

Como que até regia a mão do fado,

Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,

Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,

Que variedade inclui esta medida,

Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;

É lei da natureza, é lei da sorte,

Que seja o mal e o bem matiz da vida.


Natal – Maria da Luz Pedrosa

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É Natal

É Natal e por esse Mundo,
Quantos Corações sem Esperança
Quantas Lágrimas
Rolando
Num Rostinho de Criança
Quanta Criança Descalça,
Rotinha, Magra, Faminta,
Apelando para o Mundo
Na Rua Estende a Mãozita…
Ah se eu fosse Poderosa
Bem Mais do que um Simples Ser,
Não Haveria no Mundo
Uma Criança a Sofrer
Por isso meu Bom Jesus
Quando o Sino Badalar
Vou fazer uma Oração
Tua Imagem Adorar
Pedirei Paz para o Mundo
Muito Amor para os Pequeninos
Alegria para os que Choram
E Pão para os Pobrezinhos
E Ajudando os que Sofrem
A Cada um Dando a Mão
Passaremos um Natal Com mais Paz no Coração.


Estes Sítios! – Almeida Garrett

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Estes Sítios!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai! o negro dos montes erguidos,
Ai! o verde do triste pinheiro!
Que saudade que deles teremos…
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh! aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh! deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai! não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta rude, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos,
Oh! saudades que dele teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!